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terça-feira, 31 de julho de 2012

Pequena crítica ao homem moderno



Por Murilo Medeiros

Abro jornal ainda cedo. O sono cisma em prevalecer e meus olhos não estão por completo acostumados com a luz do dia. Folheio uma, duas, três páginas. Leio algo aqui, corro os olhos ali. O fato é que, algumas vezes (lê-se quase sempre), observo brutalidades no jornal. E não é apenas neste meio de comunicação. Rádio, TV, internet: Qualquer um pode, se quiser, refletir sobre as coisas banais causadas pelo bicho homem.
Manipulação do dinheiro público, estupros, quadrilhas, filha que mata o pai, pai que estupra a filha, massacres em massa, autoritarismo, roubo: A verdade é crua, mas ainda assim é verdade. Sábio é o velho ditado: somos homens das cavernas presos em ternos. Não é a ética que move nossas ações, mas sim a moral. Temos medo dos outros, medo do que vão pensar, do que vão fazer e quais serão as consequências. Não fosse isso, certamente seríamos animais ferozes e ávidos por inconsequência, qualidade que nos toma até mesmo com a moralidade em jogo.
Parece incrível, – do verbo crer, que não pode ser executado – mas milhares de anos depois, passando pelos impérios antigos, pela brutalidade medieval e pelo renascimento das ideias, pelas revoluções e pela era da tecnologia – ainda somos os mesmos velhos macacos repletos do extinto animal agressivo, cuja evolução nos fez perder alguns pelos, deu-nos uma espinha ereta e tirou-nos os membros superiores do chão. Fora isso, não consigo ver diferença alguma entre um ser que atira contra seu próprio povo, um grande líder que observa exterminações humanas a sua volta sem nada fazer em pró e um Australopithecus qualquer da pré-história, balbuciando pequenos sons guturais, denotando-lhe certa, ou total, ignorância. O nível intelectual é o mesmo, o senso ético e humano estão próximos de números negativos.
Até quando? Nem o mais remoto profeta conseguiria responder. Diversos foram os que tentaram – e ainda tentam – mudar a dura e bruta realidade, mas todos, com algumas exceções, foram massacrados pelo objeto que lutavam: o homem. Não basta querer, saber ou se lamentar para que as coisas fiquem do jeito que devem ficar. A unidade, você mesmo, pode não ter a expressão de um país, uma nação ou um continente, mas certamente o mundo, na sua pequenez em meio ao universo, não mudará sem que alguém tome a iniciativa. Ainda somos os mesmos, é certo, mas basta uma atitude ou um gesto de humanidade para que as coisas, enfim, comecem a mudar. Basta que, além de ler o jornal, tentemos mudar a crua realidade que nele se conta. Só assim mudaremos a história.



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Um cumplice da ditadura: o Itamaraty nos anos da repressão


                                                                             Felipe Alessio*       

 Até hoje muito se discuti sobre a participação ativa do MRE na manutenção do regime ditatorial no Brasil e também seu apreço por outros regimes na América do Sul (Videla na Argentina e Pinochet no Chile). Com a possibilidade de acesso recente aos documentos considerados secretos, começaremos a descobrir quanto de fato foi o “auxilio” fornecido pelo Itamaraty. Muitos estudos estão sendo realizados, e alguns já se encontram para consulta, é o caso do artigo de Pio Penna Filho: O Itamaraty nos anos de chumbo – O Centro de Informações do Exterior (CIEX) e a repressão no Cone Sul (1966-1979). Façamos assim, uma breve resenha de seu trabalho.  
O autor procura apresentar em seu artigo as atividades desempenhadas pelo Centro de Informações do Exterior desde sua criação em 1966 até o ano de 1979. Desta maneira, Penna Filho derruba o mito de que o Itamaraty não colaborou com o lado perverso da ditadura, especialmente ressaltando o papel de cooperação com as principais agências de repressão no Brasil. Essas agências tinham como características o combate ao inimigo interno, o qual era identificado como comunista, no entanto o fato de se opor ao regime já era motivo o bastante para tal taxação. Neste sentido, a CIEX monitorava e seguia os passos dos exilados brasileiros que eram ligados a alguma atividade política e contestavam a nova “ordem”, portanto, a agência tinha função de informar a comunidade nacional sobre os fatos exteriores, além de elaborar análises estratégicas de conjuntura política e econômica de outros países.
A CIEX contou com vantagens para sua atuação, especialmente no Cone Sul, uma vez que durante as décadas de 1960 e 1970 todos os países da região se encontravam sobre regimes repressivos. Esses regimes compartilharam alguns objetivos comuns: um profundo discurso anti-comunista e respaldavam a legitimidade na ideologia da segurança nacional. Mesmo que não se possa dizer ter existido de fato uma integração desses sistemas de repressão, podemos ressaltar aqui uma das tentativas de criação desse sistema: Operação Condor (1976).
Sobre os exilados, Penna Filho relata que este período não significou o fim da atividade política para estas pessoas, e sim, iniciavam um processo de reagrupamento sobre o tom das lideranças de origem. Neste caso, citam-se Brizola e Goulart, que formaram dois grupos de exilados no Uruguai, prestando informações e auxilio material aos militantes. Destaca-se também o interesse crescente por parte do Brasil sobre os exilados em países vizinhos, em especial após a criação da CIEX, monitorando o comportamento e os passos dos exilados mais ativos.
No que tange a ditadura brasileira, o autor relata a institucionalização da violência como método de repressão. Além da constituição de um Sistema Nacional de Informação, cuja função era zelar a manutenção dos sucessivos governos militares autoritários de 1964 a 1984. Reforça-se aqui a ligação do CIEX e sua maior contribuição ao sistema: acompanhamento e monitoramento de atividades de brasileiros no exterior. Uma das informações captadas por essa instituição foi a de que 768 refugiados políticos deixaram oficialmente a argentina nos meses de junho a agosto de 1976, devido aos fatores de terrorismo de Estado implantado nesse país, em especial “toda sorte de brutalidade imaginável” aos opositores ao regime argentino.
Portanto, é fatídico relatar as necessidades da ditadura militar se manter no poder através de mecanismos de repressão e controle, para isso se cria a CIEX, a qual visa o mapeamento e a vigia dos exilados políticos no exterior perante suas possíveis aglomerações e tentativas de incitar manifestações nacionais contra o regime vigente. A CIEX abordará em 1976 (Operação Condor) as tentativas da criação de um sistema de integração sobre o controle dos anti-comunistas com os países do Cone Sul. No entanto, esse processo de integração não teve muitos adeptos no Brasil, uma vez que o país já teria eliminado os focos de resistência a ditadura e os brasileiros exilados no Cone Sul se viram obrigados a sair do continente, já que estes países também se encontravam sobre um regime ditatorial. Neste argumento caracterizam-se o “pragmatismo ecumênico responsável” de Geisel e Silveira, no qual o as instituições ou normas internacionais devem condizer com o interesse nacional, se no caso não condizem, limitam a autonomia e o espaço de manobra do país.
Pio Penna Filho: O Itamaraty nos anos de chumbo – O Centro de Informações do Exterior (CIEX) e a repressão no Cone Sul (1966-1979)

* Felipe Alessio - Mestrando em Relações Internacionais - UFSC
                             Bacharel em Relações Internacionais - Unisul



A Teologia, a ortodoxia e a democracia


João Marcos Pereira Soares


A questão mais debatida na América Latina nas últimas semanas é o impeachment do presidente Fernando Lugo, que pode ser considerado um golpe de Estado, apesar de o governo “golpista” negar e afirmar que executou tudo dentro das normas constitucionais. O fato é que a democracia na América Latina mais uma vez foi ferida.
Semelhante ao que aconteceu com João Goulart no Brasil, em 1964, os ”golpistas” aproveitaram uma viagem do presidente, neste caso a participação de Fernando Lugo na Rio+20, realizada no Brasil, para, através da Câmara dos Deputados, abrirem o processo que levaria a cassação do presidente paraguaio. Lugo teve vinte e quatro horas para preparar uma defesa que teria de ser feita em duas horas. Héctor Timerman, chanceler argentino, em entrevista ao jornal Página 12, também argentino, denunciou o golpe: “Praticaram uma execução sumária. Darem duas horas de defesa a um presidente democraticamente eleito – um tempo menor que o que se concede a quem recorre de uma multa por avançar um sinal vermelho”.
Ataques à democracia à parte, um fator interessante do pós-impeachment no Paraguai foi o posicionamento do Vaticano, que reconheceu quase que instantaneamente o novo governo liderado por Federico Franco. Não é segredo que Fernando Lugo – aposentado, em 2004, pela Igreja Católica da função de bispo, sem razões divulgadas e recebendo a denominação de bispo emérito – é adepto da Teologia da Libertação, um movimento cristão de abordagem política que promove a justiça social, em defesa dos pobres e oprimidos; utilizando, para isso, as orientações do Concílio Vaticano II (1962-65), que tem como intuito a opção preferencial pelos pobres. É caracterizada por alguns autores como um marxismo cristianizado.
O Vaticano julga a abordagem marxista da Teologia da Libertação equivocada, por considerá-la herética, já que faz uma leitura materialista e ateia dos acontecimentos espirituais e também por considerar a aceitação de ideologias políticas como incompatível com a doutrina católica.
A aposentadoria de Fernando Lugo da função de bispo, para muitos, deve-se à sua militância política e ligação com a Teologia da Libertação, já que é sabido que o presidente paraguaio é profundo admirador e próximo de alguns expoentes da Teologia da Libertação, como Leonidas Proaño e os brasileiros Frei Betto, Leonardo Boff e Hélder Câmara. Em 2008, para concorrer à presidência, Lugo abandonou a batina definitivamente, já que a lei paraguaia exige a renúncia da vida religiosa para a participação em eleições.
Bento XVI, assim como foi seu antecessor, João Paulo II, é um grande defensor da ortodoxia católica e combate veementemente a rebeldia dos integrantes da Igreja que tentam fugir da doutrina católica tradicional. Não é interessante ao Vaticano que um ex-bispo adepto da Teologia da Libertação lidere um país católico e conservador.
Em um período no qual a Teologia da Libertação está em declínio, o Vaticano acredita ter vencido mais uma batalha para acabar com os defensores do movimento. Mas Fernando Lugo não se dá por vencido e já formou um governo paralelo ao de Federico Franco. Movimentos sociais e apoiadores de Lugo protestam e lutam pelo restabelecimento da ordem democrática no Paraguai. Mais um capítulo da história da América Latina está sendo escrito e promete muitos parágrafos até o último ponto final.

(*) João Marcos Pereira Soares é acadêmico de Relações Internacionais